Inicialmente, este texto se chamaria “Ao desconcerto do mundo”, numa homenagem óbvia ao poema do grandioso Luís de Camões e a toda contradição que nos tortura ao lê-lo.
Minha vontade basta como argumento e embasamento, e não poderá ser criticada minha forma tão própria e imperiosa de ver o mundo, farta de estrógeno e progesterona.
É por isso que eu escolhi escrever sobre a alma feminina: não pode haver um amargo mais doce, ou um simples mais complexo do que a mulher.
Reconheço ser necessária muita sutileza e um bocado de incisão para este tema. Lembrem-se de que esta própria autora é mulher,e não gosta do mais ou menos. Como disse a diva Lispector: ou toca ou não toca.
Hoje, sinto-me mais mulher que antes, embora ainda defenda-me generalizando particularidades e cobre aqueles que não me valorizam pelas minhas idiossincrasias. Acredito que estar convivendo com uma emoção extremamente humana, embora atualmente pareça mais feminina, chamada insegurança, tem me feito crescer. Foi-se o tempo em que tudo ficava sempre no lugar e que todo o esforço era recompensado. Foi-se o tempo em que ter um bom coração era o bastante.
Amar e sentir medo. Não pode existir algo mais normal, mas por que nos deixamos abater com tanta facilidade quando isso acontece? Tenho recebido uma dose alta de realidade e tentado crescer com isso. Não é fácil, mas não vou desistir, afinal de contas, se não desistimos nem do dinheiro, vamos desistir da paz e do amor? Escrever é sempre uma catarse.
Se não percebermos como as coisas são, criadas e alimentadas por uma mídia fantasiosa, corremos o risco de nos envolvermos em histórias dignas de Nelson Rodrigues e, esperando os grandes momentos, perderemos o cotidiano, que é onde a felicidade realmente está.
Trazemos o amor como início, meio e fim, e quem poderá dizer que ele não significa tudo? Não podemos ter o amor como justificativa para tudo, mas a sensatez como valor máximo é um momento histórico. Nem sempre foi errado optar pelo que faz o coração vibrar e a vida ser mais alegre.
Na ausência de carinho e atenção, mergulhamos numa escuridão silenciosa, apesar dos soluços nítidos e olhos vermelhos, que nos rouba a energia. E, quando há uma decepção, por mais carinho e atenção que dispensem a nós, o desespero pode falar mais alto. Nessas horas, percebemos o quanto a vida exige de nós, o quanto precisamos lutar todos os dias, pelo sorriso, pelo perdão, pela paz.
Conheço senhores serenos que, com a sabedorinha de quem viveu e se doou, dizem, cheios de certeza: viver não é fácil, não. Não é fácil para todos, quanto mais para nós, que não estamos muito acostumadas a reclamar para não exigir paciência demais de quem nos acompanha. Somos sensíveis, mas somos fortes. Queremos elogios e carinhos, mas não aceitamos palavras falsas. À isso, preferimos o silêncio. Quilos, promoções, chocolates e cuidados com a beleza servem-nos como medida paliativa, mas sabemos que a solução só chegou quando o coração se acalma. Quando isso acontece, não precisamos de flores, jóias ou presentes. Um “bom dia” sincero e positivo torna-se uma declaração de amor e força e, é só por esses momentos que passamos por cima de muita coisa, sentimos angústia, ansiedade, mas ao conseguirmos de volta esse bem-estar, concluímos com coraçõezinhos saltitantes de meninas, apesar das rugas e dos anos: valeu à pena.
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