terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O tempo e a nossa casmurrice

Hoje eu estava na cozinha, era a antiga hora da Ave-maria. Nesse horário minha casa está sempre cheia: meu pai chega do trabalho, meu irmão já chegou da escola, minha irmã e eu estamos em casa também e minha mãe já pôs a mesa de café. Que hora boa! Não tem aquela correria da hora do almoço que hoje invade quase todas as casas brasileiras. Aquela mesa bonita, o café feito na hora, bolachas, pão quentinho e conversa boa. Nessa hora todos contam como foi o dia, que novidades têm e etc. Nessa hora também chegam à minha casa duas pessoas de quem gosto muito: minha avó e minha madrinha. Moram logo em frente, numa tranqüilidade difícil de descrever. Se não tem ninguém em casa, logo vou pra casa em frente. Lá tem mesa pronta, cama pronta e pessoas prontas pra receber a qualquer hora. Acima de tudo, lá sempre tem carinho!
Então, pensando nisso, eu resolvi escrever...queria aproveitar que o meu tema de hoje batia exatamente com o livro que terminei de ler há poucos dias: Dom Casmurro. Independente da trama, que não é necessária aqui, o título já nos reserva a idéia de uma pessoa ensimesmada. Ou, segundo o Aurélio: metida consigo mesma. Quem de nós não é casmurro hoje?
Bem, unindo o útil ao agradável, o assunto do nosso café da tarde de hoje foi o tempo antigo, a amizade dos vizinhos, a liberdade da qual se usufruía, os laços que eram criados naquele tempo...
Não sei se o que chamamos de privacidade hoje tem realmente valor...Há um ditado que diz: “quando a casa pega fogo, quem ajuda é o vizinho”. Piada. Hoje em dia, é piada mesmo. Não se sabe mais a cor da casa dos vizinhos, amigos inexistem e colegas de trabalho não são confiáveis. Bem, é claro que não são todos.
Na hora “feliz” do meu café da tarde, antigamente as pessoas estavam sentadas na porta das suas casas, os vizinhos e amigos vinham chegando, todos conversavam, todos realmente se preocupavam se alguém ali tinha um problema. Havia intimidade, as pessoas que moravam perto trocavam doces. A amizade era intensa.
Hoje, quantas pessoas sentem-se sozinhas morando nas cidades mais populosas e povoadas do país? Quem nunca se sentiu só, mesmo tendo pessoas do lado? As crianças brincavam na rua, as portas viviam destrancadas, havia uma atmosfera de tranqüilidade reinando. Quantas mulheres choravam as brigas com seus maridos na casa da vizinha, que era como uma irmã? Quantos jovens buscavam conselhos do vizinho, que era como um tio?
E hoje? Se você for adulto responda-me: você tem liberdade de chegar na casa do seu próprio irmão sem avisar? Ele deve achar estranho, afinal, quantas vezes vocês se encontram apenas naqueles almoços especiais? Falam-se pouco, um quase não sabe da vida do outro...
Será que pedimos por essa distância? Quantos pais há hoje preocupados por que os filhos já não saem da frente do computador? Estamos perdendo a saúde e a sanidade! Pessoas foram feitas para conviver, para gostarem de companhia! Precisamos recuperar isso! A amizade, o próprio calor humano!
Bem, por morar no interior, próxima de parentes e amigos e tendo um café assim tão bom, fico feliz... Mas e aqueles que não têm a mesma sorte?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cervantes e os brasileiros

Sinto inveja de Dom Quixote.Sinto inveja de tudo nele, inclusive da sua loucura. Creio que todo brasileiro deveria sentir o mesmo que eu, embora infelizmente seja difícil encontrar brasileiros que conheçam-no.
Pra começar, sinto inveja (não pessoalmente, porque nesse aspecto somos semelhantes, mas como brasileira) da sua paixão por leitura, da sua dependência dos livros, do valor que ele dá aos autores. Quanto tempo ainda será necessário para que as massas, e mesmo a elite fútil, cheguem nesse ponto? Imagino com tristeza que ainda demorará muito e que ainda será necessário voltar a esse tema que causa a mim tanta ansiedade muitas vezes.
Continuando, sinto inveja da intensidade da sua vontade. Qualquer pessoa que leu a maravilhosa obra percebe o quanto Dom Quixote desejava. Ele não deixava de ir atrás das coisas que queria. Ele mudava sua rotina de acordo com suas vontades. Logicamente desejaria bom senso, mas acho que muita coisa mudaria caso fizéssemos o mesmo.
Invejo também a disposição do cavaleiro andante.Invejo muito sua disposição. Se fosse para fazer justiça (ainda que o consideremos louco, ele lutava pela justiça que acreditava) ele estava disposto a qualquer momento e em qualquer situação. Então eu penso se não estamos todos mortos nesse país...provavelmente estamos porque acredito que esse é o estado mais adequado na nossa situação. Diante de tantos absurdos, continuamos a fingir que não é conosco. Eu não vou me cansar de repetir que há algo errado...que estamos errados...que não podemos aceitar!
Sinto inveja de como ele valorizava as pessoas que faziam o bem. Se na sua época não havia mais heróis, ele fazia questão de decorar os nomes deles e gritá-los aos quatro ventos. Sinto inveja porque ele valorizava pessoas boas quando nós não conseguimos desvalorizar as ruins. Hoje os heróis que ainda restam são quase sempre muito criticados e podemos constatar isso de um forma muito simples:as novelas. Exatamente um entretenimento que atinge perfeitamente as classes sociais mais baixas.Ninguém quer o bonzinho e todos adoram o vilão.
Sinto falta, apesar de não tê-lo vivido, do tempo em que palavra era palavra. Do tempo que havia diferença entre pessoas boas e ruins. Do tempo em que, se você manchasse seu nome, nunca mais o recuperaria...Estamos perdidos demais, estamos simplesmente deixando os dias passarem...não fazemos nada, nem lembramos pra qual deputado votamos na última eleição...não protestamos, não gritamos, não criticamos, não acompanhamos nada...
Bem, há muitas outras coisas que eu invejo em Dom Quixote de La Mancha, mas há uma em especial.Algo que eu acho que é o maior de todos os problemas. O motivo maior da minha inveja é que ele via problemas em moinhos de vento e nós vemos apenas moinhos de vento nos problemas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A menina e o Espelho

Ela era uma menina qualquer, dessas assim que se tornam especiais por serem tão quietas. Falava baixo, não olhava nos olhos das pessoas e ninguém nunca tinha ouvido seus passos, tão discreta que era.
Bem, ela tinha medo também...ela tinha medo de fazer descobertas, medo de ter que dizer algo sobre as suas descobertas, medo do que diriam se ela dissesse o que pensava, e, finalmente, medo do que as pessoas pensariam das suas opiniões. Mas o seu maior medo era olhar para si mesma, sem saber o que encontraria. O seu silêncio era um escudo, uma dependência. Às vezes, ela sentia vontade de se libertar dele, mas preferia a proteção que ele lhe dava.
E por muitos anos a menina viveu assim, mais vulto que pessoa...
Acontece que na sua casa tinha um cachorro, que ficava no quintal.Ele se chamava Espelho.A menina nunca ia até o quintal porque achava que o caminho que a levaria ao Espelho era muito perigoso e ela preferia mantê-lo bem longe. Ela achava que o Espelho era cruel.
Todas as suas amigas iam até a sua casa para olharem o Espelho e a menina não sabia como ela não conseguia. Ela sentia vergonha de chegar perto do Espelho com suas amigas do lado.
E os dias foram passando...a menina estava a cada dia mais calada, mais distante, mais escondida e com mais medo. Mas ela sabia que um dia teria que enfrentá-lo e isso não demoraria. Bem, o seu medo era tanto que aquele simples cão já era um monstro pra ela. Na sua imaginação chegar até o Espelho e abrir os olhos era um missão impossível.
Ela não sabia aonde encontrar ajuda para conseguir finalmente perder o medo do Espelho...então ela percebeu que isso dependeria muito, ou totalmente, mais dela do que de qualquer outra pessoa. Esperar mais seria muito duro com ela mesma.Não sabia como faria, mas decidiu fazê-lo...
Ela foi andando de olhos fechados, apoiando-se em todos os lugares que podia. Seu medo era tanto que as suas pernas tremiam, em sua face escorria uma lágrima...as pessoas podiam até achar estranho, mas era muito difícil pra ela.
Quando percebeu que estava logo em frente ao Espelho ela contou até dez para abrir os olhos...
E quando ela abriu os olhos e viu que o Espelho não era assustador como ela pensava, ela ficou tão feliz que o céu pareceu até mais azul...
E a menina que não sorria, sorriu tanto que até o Espelho percebeu, e decidiu sorrir também...
E a lágrima de medo que escorria em sua face foi transformada em sorriso...
E as pernas trêmulas de medo ficaram trêmulas de alegria...
E o medo de olhar o Espelho foi trocado pela visita diária a ele, que agora só trazia a ela sorrisos e sonhos...
E a menina que nunca falava começou a cantar...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Gastos Judiciais

Políticos são os representantes do povo...e como eles o fazem bem! Suas atitudes provam que não há ninguém melhor para essa tarefa. São ridículos, palhaços, que agem sem sensatez alguma e, sempre que possível, beneficiam a si mesmos, em processos tão vergonhosos que qualquer pessoa na condição humana jamais teria coragem de participar.
O povo brasileiro também é assim, um povo ridículo, afinal não há outra qualificação para pessoas que aceitam as trapalhadas dos nossos queridos políticos. Somos palhaços indiscutivelmente, porque fomos roubados, deixados em último plano (se existir algum plano que coloque-nos como alvo), fomos tratados com desumanidade, desrespeito, desdém... e ainda assim, ficamos estáticos. Não há outra palavra senão insensatez para caracterizar uma nação que assiste ao pior crime já cometido (a morte do garoto João Hélio) e exatos onze dias depois, está bebendo cerveja e comemorando o Carnaval. Quanta podridão! E sobre agir em benefício próprio caímos no famoso jeitinho brasileiro, de subornar para não levar a multa, de viver da ilegalidade, de furar a fila para chegar primeiro, de pedir a intercessão de pessoas conhecidas, ricas, com influência política para conseguir o que quer e de tantas outras coisas...
Enfim, o Poder Judiciário anunciou hoje um gasto de R$312,9 milhões apenas para obras como a construção de edifícios, reformas de imóveis, construção de sedes. Até aí já é uma péssima notícia...mas adivinhem...como sempre, os cálculos da obra são irregulares. O montante supera os gastos com projetos de quatro ministérios juntos (Cultura, Esporte, Meio Ambiente e Minas e Energia).
O deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), uma voz de ouro em meio a tanto silêncio, conseguiu aprovar um corte de R$106 milhões nas obras e seus cálculos provaram que ela deveria custar, no máximo, R$144 milhões, ao invés dos R$312,9 milhões. Enfim, “nosso” dinheiro poderia ser aplicado em projetos bem mais interessantes, talvez, de educação, talvez de saúde...o que lamento é que não é possível gastá-lo em obras de revitalização de moral.