segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cervantes e os brasileiros

Sinto inveja de Dom Quixote.Sinto inveja de tudo nele, inclusive da sua loucura. Creio que todo brasileiro deveria sentir o mesmo que eu, embora infelizmente seja difícil encontrar brasileiros que conheçam-no.
Pra começar, sinto inveja (não pessoalmente, porque nesse aspecto somos semelhantes, mas como brasileira) da sua paixão por leitura, da sua dependência dos livros, do valor que ele dá aos autores. Quanto tempo ainda será necessário para que as massas, e mesmo a elite fútil, cheguem nesse ponto? Imagino com tristeza que ainda demorará muito e que ainda será necessário voltar a esse tema que causa a mim tanta ansiedade muitas vezes.
Continuando, sinto inveja da intensidade da sua vontade. Qualquer pessoa que leu a maravilhosa obra percebe o quanto Dom Quixote desejava. Ele não deixava de ir atrás das coisas que queria. Ele mudava sua rotina de acordo com suas vontades. Logicamente desejaria bom senso, mas acho que muita coisa mudaria caso fizéssemos o mesmo.
Invejo também a disposição do cavaleiro andante.Invejo muito sua disposição. Se fosse para fazer justiça (ainda que o consideremos louco, ele lutava pela justiça que acreditava) ele estava disposto a qualquer momento e em qualquer situação. Então eu penso se não estamos todos mortos nesse país...provavelmente estamos porque acredito que esse é o estado mais adequado na nossa situação. Diante de tantos absurdos, continuamos a fingir que não é conosco. Eu não vou me cansar de repetir que há algo errado...que estamos errados...que não podemos aceitar!
Sinto inveja de como ele valorizava as pessoas que faziam o bem. Se na sua época não havia mais heróis, ele fazia questão de decorar os nomes deles e gritá-los aos quatro ventos. Sinto inveja porque ele valorizava pessoas boas quando nós não conseguimos desvalorizar as ruins. Hoje os heróis que ainda restam são quase sempre muito criticados e podemos constatar isso de um forma muito simples:as novelas. Exatamente um entretenimento que atinge perfeitamente as classes sociais mais baixas.Ninguém quer o bonzinho e todos adoram o vilão.
Sinto falta, apesar de não tê-lo vivido, do tempo em que palavra era palavra. Do tempo que havia diferença entre pessoas boas e ruins. Do tempo em que, se você manchasse seu nome, nunca mais o recuperaria...Estamos perdidos demais, estamos simplesmente deixando os dias passarem...não fazemos nada, nem lembramos pra qual deputado votamos na última eleição...não protestamos, não gritamos, não criticamos, não acompanhamos nada...
Bem, há muitas outras coisas que eu invejo em Dom Quixote de La Mancha, mas há uma em especial.Algo que eu acho que é o maior de todos os problemas. O motivo maior da minha inveja é que ele via problemas em moinhos de vento e nós vemos apenas moinhos de vento nos problemas.

5 comentários:

Unknown disse...

Palavras que são singelas e tão verdadeiras, que mostram que o esclarecimento de poucos vs. a negligência de muitos!
Essa alusão feita pela autora com Dom Quixote mostra uma existência
pacata de nós brasileiros frente à tudo o que ocorre, mostra o que somos e que estamos bem distantes do que deveríamos ser!

Mais uma vez meus parabéns Ana!
Me surpreendeu de novo!
Texto muito bem escrito!
beijao
Marcella

Unknown disse...

mostram o esclarecimento*

Gabriel Alencar...? disse...

E novamente, mostra-se o que todos deveriam saber.

Gostei, e estando mesmo bem longe de Dom Quixote, nós acabamos sendo somente um Sancho Pança, que segue o líder em sua loucura, mesmo tendo a capacidade de pensar.
No nosso caso, isso não é por admiração.

Realmente gostei dos seus textos, vou me esforçar para sempre lê-los.

Abraços

ANDRÉ FERRER disse...

Belas imagens! a Carmen tinha razão: você é uma escritora! Gostei dos contos, dos contos quase crônicas e das crônicas quase contos... Rsrsrsrs!!! Gostei da mistura: política, crítica social e prosa da boa! Parabéns!

Unknown disse...

ã ana paula, axo q vc sabe neh, ja sou seu fã, cada texto q eu leio aqui, um eh melhor do que o outro, vc me fez ate ter inveja de dom quixote.
bjao