quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Com o tempo,a dor ou a vida?Seja como for, aprenderemos

Há que doer um pouco para se aprender que doação é satisfação do instinto e que renúncias, sim, são provas de amor...e que talvez seja por isso que poucos amores se comparam ao amor de uma mãe.
...que cumplicidade não é conivência e por isso é tão difícil encontrar amigos tão bons quanto seus pais.
...que é fácil acertar quando não se conhece a facilidade do caminho errado.
...que beleza é suborno e que atração nem sempre é afinidade.
...que o silêncio é fácil quando não se tem que ver alguém amado ir embora.
...que despedidas doem para quem fica como se fossem novos começos apenas para quem está indo.
...que perdemos muito tempo justificando que as fases não são as mesmas ou que tomamos caminhos diferentes para não termos que enfrentar a força, seja ela negativa ou positiva, do amor sobre nossa imaturidade.
...que a agonia do não saber pode ser bem pior que as lágrimas de um perdedor, em todos os sentidos possíveis.
...que é fácil se apaixonar antes de ter amado alguém.
...que as marcas de uma experiência que doeu muito serão úteis para protegê-lo de outras dores, mas depois de um tempo você vai querer se arriscar, nem que seja pra sofrer tudo outra vez só para poder ter a maravilhosa sensação do sentir.
...que você sempre vai concluir que valeu à pena, nem que seja por um único lado.
...que ter a consciência tranqüila é o que traz paz.
...que admitir seus erros é diferente de justificá-los.
...que a solidão pode afastar alguns tormentos, mas será sempre o meio mais distante da felicidade para qualquer ser humano.
...que amizade é amor, mas que amor nem sempre é amizade.
...que lembranças boas podem trazer sofrimento ou alegria, mas lembranças ruins trazem apenas tristeza, e o impedem de olhar em frente; e que diferenciar uma da outra pode ser decisivo para que uma pessoa cresça.
...que a frase ‘isso dói mais em mim do que em você’ pode ser real, mas apenas para quem ama com sinceridade.
...que apenas o fato de encontrar-se com um amigo de verdade possibilita a uma pessoa ter bases para tomar decisões, mesmo que não tenham trocado uma única palavra.
...que obsessão é o que antecede a frustração.
...que saber, em algumas situações não faz muita diferença.
...que escolher resume quase todas as dificuldades de uma vida.
...que a felicidade só é real a quem se entrega de verdade a tudo, mas que entregar-se de verdade a tudo não garante a felicidade.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Uma carta pra você

Oi meu bem,

Embora eu nunca tenha negado carinho a você, acredito que essa carta vai ser uma daquelas surpresas que te deixam com uma cara de quem não entende...e logo depois, esquece. Mesmo assim, eu já não importo...sobre nós, eu não sei se ganhei, se perdi ou se ganhamos ou perdemos.
Não sei bem o que eu quero dizer...quero dar explicações, mesmo sabendo que você não tem curiosidade alguma a respeito das minhas atitudes. Nas vezes em que eu fui forte, foi por acreditar que eu era mesmo o melhor pra você...talvez mais do que você merecia ou melhor do que todas as outras que você conseguia. Nas vezes em que fui fria, foi porque eu já tinha sofrido com outras pessoas e, aprendi que os fantasmas não atravessam paredes, eles só entram se nós abrirmos a porta. Fui fria por medo ou precaução, e acho que isso até me ajudou um pouco.
Mas é claro, houve momentos em que fui doce. Aliás, foram os melhores momentos! Eu fui doce porque aprendi que não adiantaria nada ter conquistado você acima de tudo. Se eu tivesse sido mais rude, dura, talvez eu tivesse até conquistado seu amor. Mas acho que conquistar você não seria o bastante pra mim. Antes de ter o amor de alguém, eu quero amar, eu quis sentir, ao invés calcular passos pra ter você na minha mão. Essa parte, eu acho que você não percebeu...eu agi pra satisfazer a mim mesma antes de pensar em aprisionar você. E acho até que foi bom...
Quando fui insegura, foi porque apesar de saber o quanto eu valia, via que muitas outras queriam estar no meu lugar, e isso foi o bastante pra me incomodar. Além disso, você já tinha tanta experiência quanto à paixões e eu não sabia nada...você conseguiu ser frio ou racional o bastante pra me ter em mãos por alguns momentos.
Fiz o que achei que era certo e é por isso que não me fere mais não ter você. Aliás, a sua ausência não me dá pânico, me traz paz...mas é uma paz que eu dispenso se comparada à felicidade que sinto quando estou com você. É claro que eu queria que você fosse meu, mas se não é possível, eu já não perco o sono por isso, aprendi a conviver com algumas pendências.
Eu queria entender qual a vantagem de poder ter todas em mãos se nenhuma é considerada boa o bastante pra te fazer feliz.Os garotos parecem mesmo meio bobos nisso. De que adianta manipular todas se nenhuma vai fazer você sonhar? Ou se nenhuma vai passar tardes rindo com você, sem que você precise se preocupar em manter uma aparência legal?
Se você quer saber, acho que valeu demais. Valeu cada segundo que você, fingindo me fez feliz, porque, veja bem, você não viveu, eu vivi. Você mentiu, eu sorri. Eu sonhei, eu chorei, eu acreditei e me desiludi. Você tinha o controle da situação e eu não acho que isso seja algo desejável ou bom, pode ser, no máximo tranqüilizante. E é por isso que eu sou feliz: não há nada como ser fiel a si mesmo.

Com carinho...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Tramas

Eu reclamei carinho e você me ofereceu verdades duras, explícitas, que eu conseguia suportar. Cresci e ainda imatura, me pego pensando em você, no que você me diz que questiona tudo o que eu passei a acreditar vencendo sozinha meus problemas. Problemas de um tempo que você nem existia, e jamais me reconheceria. As conclusões a que cheguei, suportando tudo o que suportei, coisas que fizeram rolar por minha face lágrimas de emoção ao vencer e ver que eu possuo força o bastante para suportar qualquer situação.
E de repente, você chega. Sem mais, ou menos, e toma seu lugar, numa posição que eu te coloquei e não sei se me arrependo. Aliás, desde então, não sei de mais nada. A sua presença, mesmo o seu silêncio questionam o que penso, calada no meu canto. À procura de paz, eu busco você, que curiosamente, me traz mais problemas e mais coisas para pensar.
Agora não basta que eu me ache certa, o que é raro, mas importante também é que você concorde, dizendo que eu cheguei no lugar certo. Confesso que, por vezes, o que eu queria era encostar no teu peito, numa postura fraternal, ou não, e sentir sua mão no meu cabelo, acalentando minhas lágrimas e medos. Estranho.
E você não é uma realidade concreta. È tão certo e tão longe como o silêncio.
E tudo em você me incomoda e me atrai.
Deveria eu agir da forma que acho certo, ou da forma que você me induz? Deveria eu buscar seus braços, irresponsavelmente, e te envolver em mais uma das minhas confusões? Deveria ser sincera o bastante para dizer que te quero e me canso de você facilmente?
É isso que você faz comigo. Faz a raiva que eu preciso sentir para buscar um elogio. Faz o próximo dia ser imprevisível, como um passo de um tango sem ensaio. Faz com que eu chore e sonhe que estamos perto um do outro, numa relação não amorosa, mas um tanto sem nexo pra mim.
Talvez a raiz dos meus problemas seja mesmo a minha idade e a limitação com que vejo tudo. Ou talvez, sempre infantil, enxergando coisas demais onde não há nada de estranho. Seja o que for, você me tira da normalidade e vai moldando, sensivelmente, a minha mente para um amanhã distante, e os meus devaneios pro dia seguinte.
Me ocupo analisando o seu sistema, o que você faz e diz, o que busca, onde acerta e onde erra. Talvez isso seja o resultado da criatividade de uma cabeça sempre em necessidade de inventar tramas para colorir um mundo que acha previsível e sem graça.
Me engano conscientemente, para sofrer, ou sorrir, e assim, sentir que vivo. Mas apesar de toda a incoerência, sei até onde posso ir para não envenenar quem não merece. Portanto, não vou te envolver, nem enganar, oferecendo possibilidades que se dissiparão num piscar de olhos. Se há algo que eu não perdi, é justamente reconhecer quem merece que eu ofereça o meu melhor, ser justa, mesmo com o inimigo, é algo que trago junto a mim, e espero nunca perder. Por isso, digo aqui que te quero o bastante para não me aproximar.
E se caso eu me enganar, não permita que eu te engane.
“Só te peço um favor, por favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer...”

sábado, 17 de maio de 2008

Felicidade

Já li sobre o “pequeno sabotador interno”. É mais ou menos aquilo que fala que estamos velhos demais pra usar determinadas roupas, que fala que estamos velhos para gostarmos de alguém, que faz com que sejamos duros com nós mesmos. Todo mundo tem um “pequeno sabotador interno” que não deixa que nós sigamos nosso coração e tomemos as decisões que queremos. Ele não permite que tiremos os dois pés do chão, não nos permite ir em busca dos nossos sonhos. Diz que não temos noção do ridículo.
Não tenho nem tempo de vida para muitas experiências que me mostraram a conclusão certa, mas o que vejo, o que me parece, é que as pessoas mais felizes são aquelas que não se prendem às pequenas coisas, que acreditam que sorrir é essencial acima de tudo e que acreditam na força de si mesmas. São os donos do seu próprio caminho, e ao mesmo tempo se apóiam em crenças que as fazem fortes. Independente do deus que escolhem para dar-lhes força, elas sabem que Ele existe e é verdadeiro. De onde tiram essa força? Como conseguem ser assim como uma rocha?
Segundo Sigmund Freud, somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro. A frase é magnífica. Só mesmo sendo de ferro para suportar tanta dor. Mas, além de ferro, o que as pessoas fortes mais usam para combater essa loucura do mundo, é o amor. Levam e trazem o sorriso das crianças e a segurança dos mais velhos. Têm problemas, mas os encaram sempre com a certeza da vitória. Não se entregam nem diante da pior dificuldade.
O que mais admiro, é que esse tipo de pessoa não é o que tem mais dinheiro, mais condições de enfrentar toda essa palhaçada a que somos submetidos pagando por melhores hospitais e escolas. As pessoas que não deixam “a peteca cair” são aquelas que sofrem em silêncio, num gesto de heroísmo esplêndido. São mães e filhos, Marias e Josés que batalham para ensinar a seus filhos que a dignidade vale mais, muito mais do que qualquer artigo material. São os esquecidos de Norte a Sul, os doentes, os analfabetos, os bóias-frias, os caminhoneiros. São órfãos de pais e de governos, é o povo sofrido que acredita na redenção.
As pessoas mais felizes quase sempre, são aquelas que têm menos. São os milhares de seguidores dos Antônios Conselheiros que existem. É o povo esquecido pelo próprio país, mas que ainda repete que Deus é brasileiro, em cada esquina.
Esse povo, sabotado externamente, aprendeu a matar o pequeno sabotador interno. Talvez seja por isso que conseguem sorrir e levar uma mensagem de esperança em cada gesto, em cada olhar. Talvez por isso confiam e ensinam seus filhos a confiar nos outros, mesmo sabendo de tanta traição. Talvez por isso, não permitem que os filhos fiquem com um lápis, uma borracha ou uma régua que não lhes pertence.
Vença seu sabotador interno. Se deixar que ele comande seus passos não será ninguém e nem descobrirá que apesar de tudo, a vida pode ser feliz. “Não diga que a canção está perdida, tenha fé em Deus, tenha fé na vida.Tente outra vez”.

Pra dar ouvidos apenas a quem merece...

Bem, se vê no rosto que a beleza que um dia foi seu trunfo, deixara apenas a saudade. Os olhos brilhantes, hoje foscos, por tanto sofrimento da vida, por tanta luta sem fim, por tanta tentativa de vencer. Os lábios, antes tão bem desenhados, tão insinuantes e vermelhos estão finos e perdem a cor. Perdem a cor assim como o cabelo, que antes comparado à queda d’água das mais lindas cachoeiras por seu peso, aos primeiros raios de sol da manhã por sua cor e às mais temíveis flechas por seu efeito, estão brancos, sem nenhum volume, sem nenhum atrativo.
O tempo passa para todos.Passou pra ela. Já não mexia o corpo em sincronia ao som das letras que a faziam sonhar e ao som do ritmo do seu coração e do seu sucesso perante o universo alheio. Ficou tudo perdido no tempo.
Quem sabe seu erro não foi a vaidade, a luxúria? O desejo de ser sempre “a mais” a consumia e era como a máxima metáfora barroca: a abelha sabe que a vela fará dela uma vítima, mas ainda assim, vai ao seu encontro, maravilhada. Ela sabia que aquele comportamento era errado, não era nem um pouco saudável...Mas pra quem era assim tão bela, que a todos encantava, havia de se dar bem na vida, de algum jeito.
Seus pais, tão ignorantes, não foram capazes de controlar a vaidade da filha, que ainda na roça, manifestava seu incrível poder de destruir corações. Em meio às plantações, seus olhos verdes neutralizavam seu suor, que nunca foi capaz de repelir os moços. Os vestidinhos que a mãe mesma fazia em casa, ou comprava em algumas feiras nas festas religiosas, pareciam feitos para exaltar a beleza natural de cada uma de suas curvas, que sem nenhuma maldade, se mostravam sempre acolhedoras e atraentes.
Sua mãe era devota de Nossa Senhora de Fátima, a protetora das crianças. Rezou sempre pela filha, mas mesmo assim, não adiantou. Era praticamente uma criança quando percebeu o fascínio que exercia sobre o sexo alheio e isso a fez perder o sentido. Os elogios subiram à cabeça, como se diz popularmente. Assim, foi perdendo a graciosidade natural, e, sem ninguém perceber, a divina beleza. Mas já era tarde, e ninguém percebeu. Todos estavam hipnotizados.
Palavra de mãe e pai, ela já não ouvia. Teimava no começo, mas depois, nem resposta dava. A mãe dizia que ela estava com “alguma coisa ruim” e o pai dizia que a mãe não soube criar.
Foi quando chegou um novo colhedor de café. Esse era alto, com os músculos bem definidos pelo trabalho, muito bonito. Gostava de falar em público, vez por outra tocava um violão, antes dos trabalhadores se deitarem. Dizia que ia mudar a vida do povo, que daquele jeito, não dava...Contava a estória de um tal de Garibaldi, que ele não sabia se existia, mas que lutou pelo seu povo, disse que seria igual. Disse que a cidade inteira, talvez o país, ainda conheceria seu nome.
Ele a viu. Achou bonita. Se aproximou. Prometeu a levar para viajar, pra conhecer todo o país. Disse que, se ficassem juntos, compraria uma casa, com o dinheiro do seu trabalho, e daria para os pais da dona dos olhos mais lindos que ele já tinha visto.
Ela era bela, já tinha até alguma maldade com os homens. Mas perto dele, era incrivelmente ingênua. Ela dava risadas das coisas que ele falava, ficava feito boba diante daquela presença marcante. Ele elevava seu ego com as palavras e ela se sentia feia perto dele. Era o único que fazia com que ela se sentisse assim.
Bem, naquele tempo, moça boa não ficava andando com os moços da plantação. Não podia, Deus não perdoava. Nem Deus e nem os pais. O pai bem falava, não tinha dinheiro, mas tinha honra. Filha dele não era pra qualquer um, a qualquer hora. Tinha que namorar, noivar e casar, mesmo que sem dinheiro.
Foi por isso que ele quase morreu quando soube da boca de um dos rapazes, que a filha não era pura e que todos já sabiam. Diziam que à noite ela saía, enquanto os pais dormiam o sono dos trabalhadores honestos. Foi vista na lavoura mesmo, com aquele rapaz do qual tanto se falava.
Pro pai, foi duro demais ter que ouvir aquilo e daquela forma. Como homem, sentia-se com menos valor do que as sementes que colocava na terra... a sua filhinha perdida nos caminhos do mundo, na boca de todos, nunca mais havia de recuperar o seu nome. Chorou como um menino, dizem que o rio que passa pela fazenda nem é de água doce por causa das suas lágrimas. Aquela dor ele não desejava nem para o seu pior inimigo. O que tinha feito de errado? Deveria ter trancado a filha em casa?
E agora, que havia de fazer? Chegou em casa com a expressão grave. Não falou com a mulher, trancou-se no quarto. Sofreu a pior das angústias. Não derramou mais nenhuma lágrima, pensou em se matar, pensou em matar o rapaz, pensou em matar a filha. Desejou poder sumir daquela vida, daquela maldita plantação. Foi quando ouviu a filha chegar, rindo-se toda, contando pra mãe que tinha um noivo. Falava que era nova, mas que já podia se casar, afinal de contas, ela o amava, e ele também a amava. Ouviu a mulher dizer à filha que tinha que falar com o ele primeiro, porque naquela casa, era o pai que dava as ordens. Se ele deixasse, ela casava.
O pai saiu do quarto. Achou melhor não falar nada enquanto não soubesse o que falar. Sentou na mesa, ouviu a filha pedir pra casar. Disse que o moço era bom, que ia fazê-la muito feliz. Contou que ele prometeu pagar com o próprio dinheiro, uma casa para dar aos futuros sogros. Nessa hora, o pai não morreu porque Deus não deixou. Ele a deixou falar e a observava. Não prestava, mas ele não conseguia vê-la a não ser como uma menina. Mas agora, era uma menina que não prestava, e ele tinha que aceitar isso.
Pensou, achou melhor que ela casasse com ele, já que a tinha feito tanto mal. Assim o destino não seria pior. Disse que daria a resposta no outro dia, na presença do rapaz. Era para ele ir lá conversar e expor suas intenções. A menina saiu correndo pra contar pra todos que ia se casar. Estava tão feliz.
Combinou com o noivo, no outro dia ele iria até a sua casa, e depois seriam muito felizes. Ele disse que iria até a cidade de manhã, mas que à noite, estaria de volta, e iria na sua casa.
No outro dia, ele acordou, foi pra cidade. E nunca mais voltou.

domingo, 20 de abril de 2008

Prosa

Bem, hoje eu vou tentar descontrair...sei que não sou boa nisso, mas as emoções estão vindo ao meu encontro aos montes, e nem sei o porquê.
Há mil coisas sobre as quais gostaria de falar:da minha família,de preconceito, das tragédias que estão roubando a cor do nosso cabelo. Imagino que não vou falar de nada no final, mas é bom reservar tempo para uma boa prosa. E movida pela sensação de que essas últimas palavras me causaram, me vejo agora numa pracinha de cidade pequena, com flores, canteirinhos, vendedor de pipoca, crianças e namorados. Aquela paz que idealizamos.
Sei que o tema tem cansado, porque é um consenso geral e ninguém conseguiu resolver, mas estamos muito distantes do próximo e de nós mesmos, principalmente. Movidos muitas vezes pela preguiça, deixamos o tempo correr e assim, deixamos de ser atenciosos, carinhosos e amigos. E deixamos de ser nós mesmos, agindo mecanicamente, friamente.
Hoje passei momentos maravilhosos ao lado dos meus pais, irmãos e tios. No rancho. No começo, pra ser sincera, eu não queria ir. Tenho 16 anos e nessa “crise” muitos adolescentes dispensam esse tipo de programa em família. Quanto perdemos por isso é imensurável. No meu íntimo, eu preferia estar sentada em frente ao computador, usando o Orkut e o Msn, mantendo contato com pessoas que não me conhecem de verdade e que não estarão comigo nos momentos mais sérios.
Mas pensei bem e resolvi ir com minha família, talvez seria bom. E como foi. Confesso que em alguns momentos meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir meu pai falando apaixonadamente sobre sua paixão pela música e sobre como ele sente saudade de tudo o que viveu na juventude. E nesse momento eu imaginei de que vou sentir falta...das tardes de sol enquanto eu estava na Internet? Da minha seriedade? De tudo aquilo que impede que eu sinta a naturalidade e a vida propriamente dita?
Não! Eu quero suor, eu quero buscar meus sonhos, quero lutar para que eles aconteçam, quero dançar, agir, falar, sonhar! Quero gastar a minha energia; em sorrisos ou lágrimas, basta que eu me sinta viva e não simplesmente um robô. E finalmente eu quero curtir muito aquelas pessoas que são meu “tudo”. São aqueles que acreditam em mim, sem vacilar! Que me ajudam e estão comigo. Que dariam a vida por mim! Que sempre deram tudo de si para que eu fosse melhor, mesmo acreditando que eu já era perfeita!
Eu sempre tive personalidade e sempre fui muito ligada à família. Mas mesmo tendo essa mentalidade desde pequena, eu me notei um pouco distante e confusa. Confusa, sobretudo. Me apegando a aquilo que é dispensável e adiando o tato que nunca vai ser muito.
Perdoem esse texto completamente pessoal. Mas talvez sirva de exemplo...talvez sirva pra alguma coisa...para tentarmos resgatar o nosso sentimento. Até porque se não estivéssemos com o coração vazio, esses crimes horrorosos não estariam acontecendo.
Tomara que eu esteja errada, mas há aproximadamente um ano, nos assustamos com o “caso João Hélio”. E toda a sociedade condenou, chorou e rezou. Mas deveríamos ter feito mais. Talvez se tivéssemos ido mais fundo, não estaríamos agora nessa agonia, nesse medo e nessa depressão com o “caso Isabella”. Talvez teríamos sido competentes o bastante para evitar outro ... (não encontro palavra que defina o que houve).Imagino que outros casos continuarão a surgir. Peço que me mostrem que estou errada.
De nada adiantou o sofrimento de todo um país, há um ano. Porque já não vivemos num mundo em que “uma dor assim pungente não há de ser inutilmente” como cantou Elis Regina. Dores pungentes, gritantes, dilacerantes são inúteis agora.
Passe mais tempo com aqueles que você ama.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A gaveta do canto

Beatriz andava tão cansada. Não tinha tempo para nada...Era trabalho, trabalho e trabalho, e se fosse só isso, estaria perfeitamente descansada. A preocupação com os pais, que já não estavam novos, o sobrinho problemático, a irmã em crise conjugal...tinha também o marido, que andava ríspido e triste com o trabalho e ela bem que tentava segurar as pontas, não só por gostar dele, mas também porque sabia que um marido, mesmo que difícil de lidar, era raro e ela não queria perdê-lo. A filha de treze anos com o namoradinho (ela se preocupava se estavam errada em aceitar, se os tempos mudaram, se seria prejudicial e se todos estavam modernos e só ela pensando como foi criada, na mais tradicional educação), a filha de dezessete, preocupada com o vestibular e exigindo aquela viagem para a Disney que lhe fora prometida.
Ela ainda tentava se manter sempre jovem e bonita, mas as marcas do tempo vinham chegando inevitavelmente. As mulheres nas revistas fazendo propaganda de um físico inatingível e irreal e os homens em todos os lugares julgando-as como modelo de perfeição.
As contas de no fim do mês não davam sossego, pareciam crescer sempre. Mas o quê ela podia fazer? As filhas precisavam de um colégio bom para que pudessem ser alguém na vida e para isso, precisavam também de um curso de inglês. O salário não dava. Na verdade, ela nem reclamava, não...afinal, tinha muitos problemas em casa, mas tinha uma família e, pelo menos na maternidade, era realizada. Se bem que, ficava triste por não poder dar aos filhos tudo o que os amigos deles usavam e compravam.
Ah, Beatriz era guerreira. Apesar de todos os problemas ela sorria quase sempre e louvava a Deus pela sua vida. Fazer o quê? Viver é assim mesmo, é uma correria louca que, às vezes, ela conseguia levar com humor. Não era sempre, mas às vezes conseguia. Um dos seus problemas era o guarda-roupa. Ela nunca tinha tempo para organizá-lo. Queria trazê-lo sempre impecável, organizado, com as roupas dobradas e cheirosas. Mas a vida não permitia isso. Nunca sobrava tempo.
Então ela resolveu fazer isso nas férias. Esse trabalho ela teria, mesmo que fosse nos dias que serviriam para o seu descanso. Assim, ela começou, da esquerda para a direita, com o cuidado de uma adolescente com suas coisas. Ela decidiu começar pelos sapatos, que não eram muitos. Pegou-os, um a um, colocou na ordem que considerou mais adequada e guardou-os. Depois, decidiu organizar suas bijuterias (jóia era muito caro, ela não tinha). Pegou uma caixinha, separou os colares, os brincos e os anéis e guardou-os. Como não dava mais para evitar, ela começou a retirar todas as roupas, dobrá-las e ia guardando-as aos poucos.
A cada peça que pegava, se lembrava de um momento, talvez de alguma época atrás...havia aquelas que ela já nem usava porque os outros insinuavam que ela já não tinha idade para usar, mesmo que se sentisse nova por dentro.
Demorou muito para organizá-las todas, mas ela conseguiu. Faltava apenas as últimas gavetas. Arrumou as duas primeiras, onde ficavam guardados os documentos do marido. Mas, na hora de arrumar a última, as filhas a pediram para fazer o almoço, porque já estavam com muita fome. Então ela deixou essa última gaveta para trás. Talvez quando ela tivesse tempo da próxima vez...
É preciso contar que nessa gaveta estavam seus momentos mais íntimos. Eram as fotos do tempo de escola com amigas com quem jurou amizade eterna, mas já nem tinha os telefones. Tinha também aqueles papéis onde havia dois nomes escritos dentro de um coração. Havia cartas de namorados antigos, clipes, uma foto de um ator de Hollywood... Claro que já não sentia nada por eles, mas gostava de guardar aquilo tudo.Era sua adolescência, era parte dela...parte da sua vida.
E depois de um tempo ela percebeu que a gaveta do canto era ela mesma, que sempre ficava por último em tudo na sua própria vida, que nunca se colocou como prioridade. Que deixava tudo em nome do marido e dos filhos. E nem reclamava...Aceitava até feliz em alguns momentos. Ela até já tinha pensado em realizar seu sonho de ir para o Nordeste com o marido, mas sem as filhas, para ela não tinha graça...quem sabe na outra primavera, quando elas estiverem mais crescidas e independentes.

Texto em homenagem a todas as mulheres do Brasil e do mundo, que além de sofrerem discriminação quanto a salários, além de serem julgadas com mais exigência pela sociedade e que além de não terem seu valor reconhecido, abdicam do mais importante da sua vida: seus planos, seus sonhos e vontades em nome de todos aqueles que as rodeiam.
Parabéns a todas vocês!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Santidade e Sanidade

Não quero lugares-comuns. Nenhum escritor deseja-o. O fato é que não consigo cantar as cores do Brasil no lugar de mostrar o Brasil sem cor. Não cantaria “as praias do Brasil ensolaradas...la la la la” em plena Ditadura militar, como se tudo estivesse bem. O que vivemos não é uma questão de anomia, apenas. Nossos pensamentos estão todos trocados, nossos valores invertidos. Eis-me aqui, novamente: o lugar-comum da inversão de valores.
Inversão de valores e santidade. É o meu tema de hoje. Não é o Papa, queridos! Não é sobre ele que me disponho a escrever. Talvez ele seja muito pra mim. Talvez nem mereça. Enfim...
Onde estamos com a cabeça? Um exemplo da confusão mental em que nos encontramos é simples: admitimos a associação de adjetivos doces a substantivos horrendos. Admitimos trapalhadas no nosso meio mais antigo de expressão:a fala.
Não digo concordância verbal, ou algo do tipo, mas concordância de sentido. Estamos incoerentes.Leitor,observe as expressões seguintes: Santa Aliança, Santa Igreja Católica, Guerra Santa, Santa Inquisição. São todas santas, embora sejam, na verdade:

Santa Aliança: grupo formado pela Rússia, Áustria e Prússia, em 1815, apesar de teoricamente defender que os governos devessem agir de acordo com a Justiça, a Caridade cristã e a Paz, ela foi, na prática, uma espécie de instrumento de restauração de monarquias.

Santa Igreja Católica: expressão presente na oração católica conhecida como Credo. Nela, os católicos se dizem crentes na Santa Igreja Católica. Ora, uma Igreja realmente Santa não excluiria as pessoas que são divorciadas, num exemplo simples. A “Santa Igreja” por acaso defende que as pessoas são obrigadas a viver debaixo do mesmo teto ainda que isso se torne um “inferno particular”?

Santa Inquisição: operação oficial conduzida pela Igreja Católica. Inquisição vem do latim Inquisitio Haereticæ Pravitatis Sanctum Officium, é um termo que deriva do ato judicial de inquirir, o que se traduz e significa perguntar, averiguar, ameaçar, extorquir, abusar, chocar, ferir emocional- e fisicamente, causar medo, apavorar, etc.

Guerra Santa: conflito liderado pelo Papa Urbano II, com o objetivo de expulsar os árabes de Jerusalém, e que provocou inúmeras mortes.

Crianças, ao ouvirem essas expressões, escandalizam-se, especialmente com “Guerra Santa”. Não admitem, rejeitam, ou mesmo riem. Riem porque não soa natural. As palavras não combinam.
Preparo-me para ouvir vossas palavras, relutantes em aceitar que as mudanças no mundo podem ser processadas pela ótica infantil, já que crianças não têm de se preocupar com as contas de fim de mês e, portanto, não vêem nas guerras oportunidade de lucro para o país.
Enganai-vos!
Crianças realmente não têm a mesma compreensão de mundo dos adultos e nem o almejam. A simplicidade para elas basta. Não se importam com “sentimentos menores” como o orgulho.
Essa simplicidade precisa ser resgatada. Para que não confundamos mais palavras. Para que nossas crianças cresçam sabendo que é o certo, o que é o errado e em que divindade acreditar. Não podemos deixar que elas cresçam esperando num Ser Divino causador de morte e destruição. Vamos tentar ser mais coerentes e melhores. Vamos ser iluminados, valorizar a razão, a simplicidade, a ordem natural das coisas.
Não sou contra a Igreja, nem a Católica e nem as outras. Acredito que a religião faz muito bem ao homem. Quanto à fé, nem é preciso que defenda minhas opiniões, já que sou totalmente favorável a crenças e proteção divina. O que repudio é a escuridão em que estamos. Precisamos de livros, precisamos de civilidade e precisamos de pessoas...com cérebro humano, que sente a compaixão, o remorso e todos os sentimentos que Deus nos possibilitou sentir.
Sim, Deus. Esse Deus maravilhoso, que nos deu a racionalidade justamente para não repetirmos como se fôssemos desprovidos de pensamento expressões como “guerra santa” ou as outras.
Vamos valorizar a sanidade que Deus nos deu e rejeitar as diversas santidades chulas que têm aparecido por aí.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O tempo e a nossa casmurrice

Hoje eu estava na cozinha, era a antiga hora da Ave-maria. Nesse horário minha casa está sempre cheia: meu pai chega do trabalho, meu irmão já chegou da escola, minha irmã e eu estamos em casa também e minha mãe já pôs a mesa de café. Que hora boa! Não tem aquela correria da hora do almoço que hoje invade quase todas as casas brasileiras. Aquela mesa bonita, o café feito na hora, bolachas, pão quentinho e conversa boa. Nessa hora todos contam como foi o dia, que novidades têm e etc. Nessa hora também chegam à minha casa duas pessoas de quem gosto muito: minha avó e minha madrinha. Moram logo em frente, numa tranqüilidade difícil de descrever. Se não tem ninguém em casa, logo vou pra casa em frente. Lá tem mesa pronta, cama pronta e pessoas prontas pra receber a qualquer hora. Acima de tudo, lá sempre tem carinho!
Então, pensando nisso, eu resolvi escrever...queria aproveitar que o meu tema de hoje batia exatamente com o livro que terminei de ler há poucos dias: Dom Casmurro. Independente da trama, que não é necessária aqui, o título já nos reserva a idéia de uma pessoa ensimesmada. Ou, segundo o Aurélio: metida consigo mesma. Quem de nós não é casmurro hoje?
Bem, unindo o útil ao agradável, o assunto do nosso café da tarde de hoje foi o tempo antigo, a amizade dos vizinhos, a liberdade da qual se usufruía, os laços que eram criados naquele tempo...
Não sei se o que chamamos de privacidade hoje tem realmente valor...Há um ditado que diz: “quando a casa pega fogo, quem ajuda é o vizinho”. Piada. Hoje em dia, é piada mesmo. Não se sabe mais a cor da casa dos vizinhos, amigos inexistem e colegas de trabalho não são confiáveis. Bem, é claro que não são todos.
Na hora “feliz” do meu café da tarde, antigamente as pessoas estavam sentadas na porta das suas casas, os vizinhos e amigos vinham chegando, todos conversavam, todos realmente se preocupavam se alguém ali tinha um problema. Havia intimidade, as pessoas que moravam perto trocavam doces. A amizade era intensa.
Hoje, quantas pessoas sentem-se sozinhas morando nas cidades mais populosas e povoadas do país? Quem nunca se sentiu só, mesmo tendo pessoas do lado? As crianças brincavam na rua, as portas viviam destrancadas, havia uma atmosfera de tranqüilidade reinando. Quantas mulheres choravam as brigas com seus maridos na casa da vizinha, que era como uma irmã? Quantos jovens buscavam conselhos do vizinho, que era como um tio?
E hoje? Se você for adulto responda-me: você tem liberdade de chegar na casa do seu próprio irmão sem avisar? Ele deve achar estranho, afinal, quantas vezes vocês se encontram apenas naqueles almoços especiais? Falam-se pouco, um quase não sabe da vida do outro...
Será que pedimos por essa distância? Quantos pais há hoje preocupados por que os filhos já não saem da frente do computador? Estamos perdendo a saúde e a sanidade! Pessoas foram feitas para conviver, para gostarem de companhia! Precisamos recuperar isso! A amizade, o próprio calor humano!
Bem, por morar no interior, próxima de parentes e amigos e tendo um café assim tão bom, fico feliz... Mas e aqueles que não têm a mesma sorte?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cervantes e os brasileiros

Sinto inveja de Dom Quixote.Sinto inveja de tudo nele, inclusive da sua loucura. Creio que todo brasileiro deveria sentir o mesmo que eu, embora infelizmente seja difícil encontrar brasileiros que conheçam-no.
Pra começar, sinto inveja (não pessoalmente, porque nesse aspecto somos semelhantes, mas como brasileira) da sua paixão por leitura, da sua dependência dos livros, do valor que ele dá aos autores. Quanto tempo ainda será necessário para que as massas, e mesmo a elite fútil, cheguem nesse ponto? Imagino com tristeza que ainda demorará muito e que ainda será necessário voltar a esse tema que causa a mim tanta ansiedade muitas vezes.
Continuando, sinto inveja da intensidade da sua vontade. Qualquer pessoa que leu a maravilhosa obra percebe o quanto Dom Quixote desejava. Ele não deixava de ir atrás das coisas que queria. Ele mudava sua rotina de acordo com suas vontades. Logicamente desejaria bom senso, mas acho que muita coisa mudaria caso fizéssemos o mesmo.
Invejo também a disposição do cavaleiro andante.Invejo muito sua disposição. Se fosse para fazer justiça (ainda que o consideremos louco, ele lutava pela justiça que acreditava) ele estava disposto a qualquer momento e em qualquer situação. Então eu penso se não estamos todos mortos nesse país...provavelmente estamos porque acredito que esse é o estado mais adequado na nossa situação. Diante de tantos absurdos, continuamos a fingir que não é conosco. Eu não vou me cansar de repetir que há algo errado...que estamos errados...que não podemos aceitar!
Sinto inveja de como ele valorizava as pessoas que faziam o bem. Se na sua época não havia mais heróis, ele fazia questão de decorar os nomes deles e gritá-los aos quatro ventos. Sinto inveja porque ele valorizava pessoas boas quando nós não conseguimos desvalorizar as ruins. Hoje os heróis que ainda restam são quase sempre muito criticados e podemos constatar isso de um forma muito simples:as novelas. Exatamente um entretenimento que atinge perfeitamente as classes sociais mais baixas.Ninguém quer o bonzinho e todos adoram o vilão.
Sinto falta, apesar de não tê-lo vivido, do tempo em que palavra era palavra. Do tempo que havia diferença entre pessoas boas e ruins. Do tempo em que, se você manchasse seu nome, nunca mais o recuperaria...Estamos perdidos demais, estamos simplesmente deixando os dias passarem...não fazemos nada, nem lembramos pra qual deputado votamos na última eleição...não protestamos, não gritamos, não criticamos, não acompanhamos nada...
Bem, há muitas outras coisas que eu invejo em Dom Quixote de La Mancha, mas há uma em especial.Algo que eu acho que é o maior de todos os problemas. O motivo maior da minha inveja é que ele via problemas em moinhos de vento e nós vemos apenas moinhos de vento nos problemas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A menina e o Espelho

Ela era uma menina qualquer, dessas assim que se tornam especiais por serem tão quietas. Falava baixo, não olhava nos olhos das pessoas e ninguém nunca tinha ouvido seus passos, tão discreta que era.
Bem, ela tinha medo também...ela tinha medo de fazer descobertas, medo de ter que dizer algo sobre as suas descobertas, medo do que diriam se ela dissesse o que pensava, e, finalmente, medo do que as pessoas pensariam das suas opiniões. Mas o seu maior medo era olhar para si mesma, sem saber o que encontraria. O seu silêncio era um escudo, uma dependência. Às vezes, ela sentia vontade de se libertar dele, mas preferia a proteção que ele lhe dava.
E por muitos anos a menina viveu assim, mais vulto que pessoa...
Acontece que na sua casa tinha um cachorro, que ficava no quintal.Ele se chamava Espelho.A menina nunca ia até o quintal porque achava que o caminho que a levaria ao Espelho era muito perigoso e ela preferia mantê-lo bem longe. Ela achava que o Espelho era cruel.
Todas as suas amigas iam até a sua casa para olharem o Espelho e a menina não sabia como ela não conseguia. Ela sentia vergonha de chegar perto do Espelho com suas amigas do lado.
E os dias foram passando...a menina estava a cada dia mais calada, mais distante, mais escondida e com mais medo. Mas ela sabia que um dia teria que enfrentá-lo e isso não demoraria. Bem, o seu medo era tanto que aquele simples cão já era um monstro pra ela. Na sua imaginação chegar até o Espelho e abrir os olhos era um missão impossível.
Ela não sabia aonde encontrar ajuda para conseguir finalmente perder o medo do Espelho...então ela percebeu que isso dependeria muito, ou totalmente, mais dela do que de qualquer outra pessoa. Esperar mais seria muito duro com ela mesma.Não sabia como faria, mas decidiu fazê-lo...
Ela foi andando de olhos fechados, apoiando-se em todos os lugares que podia. Seu medo era tanto que as suas pernas tremiam, em sua face escorria uma lágrima...as pessoas podiam até achar estranho, mas era muito difícil pra ela.
Quando percebeu que estava logo em frente ao Espelho ela contou até dez para abrir os olhos...
E quando ela abriu os olhos e viu que o Espelho não era assustador como ela pensava, ela ficou tão feliz que o céu pareceu até mais azul...
E a menina que não sorria, sorriu tanto que até o Espelho percebeu, e decidiu sorrir também...
E a lágrima de medo que escorria em sua face foi transformada em sorriso...
E as pernas trêmulas de medo ficaram trêmulas de alegria...
E o medo de olhar o Espelho foi trocado pela visita diária a ele, que agora só trazia a ela sorrisos e sonhos...
E a menina que nunca falava começou a cantar...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Gastos Judiciais

Políticos são os representantes do povo...e como eles o fazem bem! Suas atitudes provam que não há ninguém melhor para essa tarefa. São ridículos, palhaços, que agem sem sensatez alguma e, sempre que possível, beneficiam a si mesmos, em processos tão vergonhosos que qualquer pessoa na condição humana jamais teria coragem de participar.
O povo brasileiro também é assim, um povo ridículo, afinal não há outra qualificação para pessoas que aceitam as trapalhadas dos nossos queridos políticos. Somos palhaços indiscutivelmente, porque fomos roubados, deixados em último plano (se existir algum plano que coloque-nos como alvo), fomos tratados com desumanidade, desrespeito, desdém... e ainda assim, ficamos estáticos. Não há outra palavra senão insensatez para caracterizar uma nação que assiste ao pior crime já cometido (a morte do garoto João Hélio) e exatos onze dias depois, está bebendo cerveja e comemorando o Carnaval. Quanta podridão! E sobre agir em benefício próprio caímos no famoso jeitinho brasileiro, de subornar para não levar a multa, de viver da ilegalidade, de furar a fila para chegar primeiro, de pedir a intercessão de pessoas conhecidas, ricas, com influência política para conseguir o que quer e de tantas outras coisas...
Enfim, o Poder Judiciário anunciou hoje um gasto de R$312,9 milhões apenas para obras como a construção de edifícios, reformas de imóveis, construção de sedes. Até aí já é uma péssima notícia...mas adivinhem...como sempre, os cálculos da obra são irregulares. O montante supera os gastos com projetos de quatro ministérios juntos (Cultura, Esporte, Meio Ambiente e Minas e Energia).
O deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), uma voz de ouro em meio a tanto silêncio, conseguiu aprovar um corte de R$106 milhões nas obras e seus cálculos provaram que ela deveria custar, no máximo, R$144 milhões, ao invés dos R$312,9 milhões. Enfim, “nosso” dinheiro poderia ser aplicado em projetos bem mais interessantes, talvez, de educação, talvez de saúde...o que lamento é que não é possível gastá-lo em obras de revitalização de moral.