Não quero lugares-comuns. Nenhum escritor deseja-o. O fato é que não consigo cantar as cores do Brasil no lugar de mostrar o Brasil sem cor. Não cantaria “as praias do Brasil ensolaradas...la la la la” em plena Ditadura militar, como se tudo estivesse bem. O que vivemos não é uma questão de anomia, apenas. Nossos pensamentos estão todos trocados, nossos valores invertidos. Eis-me aqui, novamente: o lugar-comum da inversão de valores.
Inversão de valores e santidade. É o meu tema de hoje. Não é o Papa, queridos! Não é sobre ele que me disponho a escrever. Talvez ele seja muito pra mim. Talvez nem mereça. Enfim...
Onde estamos com a cabeça? Um exemplo da confusão mental em que nos encontramos é simples: admitimos a associação de adjetivos doces a substantivos horrendos. Admitimos trapalhadas no nosso meio mais antigo de expressão:a fala.
Não digo concordância verbal, ou algo do tipo, mas concordância de sentido. Estamos incoerentes.Leitor,observe as expressões seguintes: Santa Aliança, Santa Igreja Católica, Guerra Santa, Santa Inquisição. São todas santas, embora sejam, na verdade:
Santa Aliança: grupo formado pela Rússia, Áustria e Prússia, em 1815, apesar de teoricamente defender que os governos devessem agir de acordo com a Justiça, a Caridade cristã e a Paz, ela foi, na prática, uma espécie de instrumento de restauração de monarquias.
Santa Igreja Católica: expressão presente na oração católica conhecida como Credo. Nela, os católicos se dizem crentes na Santa Igreja Católica. Ora, uma Igreja realmente Santa não excluiria as pessoas que são divorciadas, num exemplo simples. A “Santa Igreja” por acaso defende que as pessoas são obrigadas a viver debaixo do mesmo teto ainda que isso se torne um “inferno particular”?
Santa Inquisição: operação oficial conduzida pela Igreja Católica. Inquisição vem do latim Inquisitio Haereticæ Pravitatis Sanctum Officium, é um termo que deriva do ato judicial de inquirir, o que se traduz e significa perguntar, averiguar, ameaçar, extorquir, abusar, chocar, ferir emocional- e fisicamente, causar medo, apavorar, etc.
Guerra Santa: conflito liderado pelo Papa Urbano II, com o objetivo de expulsar os árabes de Jerusalém, e que provocou inúmeras mortes.
Crianças, ao ouvirem essas expressões, escandalizam-se, especialmente com “Guerra Santa”. Não admitem, rejeitam, ou mesmo riem. Riem porque não soa natural. As palavras não combinam.
Preparo-me para ouvir vossas palavras, relutantes em aceitar que as mudanças no mundo podem ser processadas pela ótica infantil, já que crianças não têm de se preocupar com as contas de fim de mês e, portanto, não vêem nas guerras oportunidade de lucro para o país.
Enganai-vos!
Crianças realmente não têm a mesma compreensão de mundo dos adultos e nem o almejam. A simplicidade para elas basta. Não se importam com “sentimentos menores” como o orgulho.
Essa simplicidade precisa ser resgatada. Para que não confundamos mais palavras. Para que nossas crianças cresçam sabendo que é o certo, o que é o errado e em que divindade acreditar. Não podemos deixar que elas cresçam esperando num Ser Divino causador de morte e destruição. Vamos tentar ser mais coerentes e melhores. Vamos ser iluminados, valorizar a razão, a simplicidade, a ordem natural das coisas.
Não sou contra a Igreja, nem a Católica e nem as outras. Acredito que a religião faz muito bem ao homem. Quanto à fé, nem é preciso que defenda minhas opiniões, já que sou totalmente favorável a crenças e proteção divina. O que repudio é a escuridão em que estamos. Precisamos de livros, precisamos de civilidade e precisamos de pessoas...com cérebro humano, que sente a compaixão, o remorso e todos os sentimentos que Deus nos possibilitou sentir.
Sim, Deus. Esse Deus maravilhoso, que nos deu a racionalidade justamente para não repetirmos como se fôssemos desprovidos de pensamento expressões como “guerra santa” ou as outras.
Vamos valorizar a sanidade que Deus nos deu e rejeitar as diversas santidades chulas que têm aparecido por aí.