Algumas feridas, para serem remediadas, dependem do elemento tempo. Não o tempo-clichê, aquele que ao passar nos deixa em paz, que traz entendimento, serenidade ou mesmo o esquecimento, que na prática é o melhor, mas que tira o aprendizado das experiências. Martha Medeiros diz que o tempo não cura nada, que ele apenas tira o incurável do centro das atenções. Não é a este tempo que me refiro.
O remédio para muitas de nossas dores depende do tempo no sentido de que algumas atitudes precisam de serem tomadas naquele exato momento. Quando se desrespeita o princípio causa-consequência, deparamo-nos com uma frustração imensa em relação à pessoa que nos magoou e a nós mesmos.
Para recuperar o que foi perdido, reparar o dano, é preciso de cuidado, presença e sobretudo, jeito, mas isso precisa acontecer logo após a invasão de nossas vidas por uma estranheza e certa hostilidade no lugar do amor. Se deixarmos que passe muito tempo (cronológico), o que vai acontecer é simplesmente aprendermos a viver sem carinho, porque, de fato, sabemos que o ser humano se acostuma a quase todas as condições que lhe são impostas.
O que tento dizer é que depois de uma decepção quase que completamente ignorada pelo outro (apesar de ter sido informado), aprendemos a não esperar nada de ninguém, e essa falta de expectativas que, para muitos, é o segredo da felicidade, para mim é onde acaba o sentido da vida, pois o que move o ser humano é a esperança, é acreditar em alguém ou em alguma coisa. Essa falta de expectativas entendo como a definição de “felicidade barata” de Machado de Assis, que nos diz para comprarmos um sapato menor que os nossos pés para sentirmos alívio ao tirá-lo.
Não sei se me perdi do objetivo principal, mas este texto foi criado com a única intenção de dizer (talvez a um alguém que, se existir, jamais vai lê-lo) que o cuidado torna-se dispensável depois de o termos esperado sangrando em vão. Depois que se perde a graça, o desespero, o impulso para lutar por qualquer coisa, depois de termos nos tornado serenos sombrios, sozinhos, aquilo por que tanto esperamos já não importa, não faz diferença, porque também as necessidades mudam.
Depois de tanto tempo, o voltar-atrás, o pedir perdão, o próprio mudar passam à finalidade apenas de consolidar nossa serenidade, sendo um reconhecimento de que a razão estava conosco o tempo todo, o que será sempre bem vindo, mas não poderá ser cura para mais nada.
Enfim, somente sentindo os efeitos do passar do tempo (cronológico), é possível desenvolver com clareza as idéias, pois, embora ainda doa lembrar, já não paralisa.
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