Beatriz andava tão cansada. Não tinha tempo para nada...Era trabalho, trabalho e trabalho, e se fosse só isso, estaria perfeitamente descansada. A preocupação com os pais, que já não estavam novos, o sobrinho problemático, a irmã em crise conjugal...tinha também o marido, que andava ríspido e triste com o trabalho e ela bem que tentava segurar as pontas, não só por gostar dele, mas também porque sabia que um marido, mesmo que difícil de lidar, era raro e ela não queria perdê-lo. A filha de treze anos com o namoradinho (ela se preocupava se estavam errada em aceitar, se os tempos mudaram, se seria prejudicial e se todos estavam modernos e só ela pensando como foi criada, na mais tradicional educação), a filha de dezessete, preocupada com o vestibular e exigindo aquela viagem para a Disney que lhe fora prometida.
Ela ainda tentava se manter sempre jovem e bonita, mas as marcas do tempo vinham chegando inevitavelmente. As mulheres nas revistas fazendo propaganda de um físico inatingível e irreal e os homens em todos os lugares julgando-as como modelo de perfeição.
As contas de no fim do mês não davam sossego, pareciam crescer sempre. Mas o quê ela podia fazer? As filhas precisavam de um colégio bom para que pudessem ser alguém na vida e para isso, precisavam também de um curso de inglês. O salário não dava. Na verdade, ela nem reclamava, não...afinal, tinha muitos problemas em casa, mas tinha uma família e, pelo menos na maternidade, era realizada. Se bem que, ficava triste por não poder dar aos filhos tudo o que os amigos deles usavam e compravam.
Ah, Beatriz era guerreira. Apesar de todos os problemas ela sorria quase sempre e louvava a Deus pela sua vida. Fazer o quê? Viver é assim mesmo, é uma correria louca que, às vezes, ela conseguia levar com humor. Não era sempre, mas às vezes conseguia. Um dos seus problemas era o guarda-roupa. Ela nunca tinha tempo para organizá-lo. Queria trazê-lo sempre impecável, organizado, com as roupas dobradas e cheirosas. Mas a vida não permitia isso. Nunca sobrava tempo.
Então ela resolveu fazer isso nas férias. Esse trabalho ela teria, mesmo que fosse nos dias que serviriam para o seu descanso. Assim, ela começou, da esquerda para a direita, com o cuidado de uma adolescente com suas coisas. Ela decidiu começar pelos sapatos, que não eram muitos. Pegou-os, um a um, colocou na ordem que considerou mais adequada e guardou-os. Depois, decidiu organizar suas bijuterias (jóia era muito caro, ela não tinha). Pegou uma caixinha, separou os colares, os brincos e os anéis e guardou-os. Como não dava mais para evitar, ela começou a retirar todas as roupas, dobrá-las e ia guardando-as aos poucos.
A cada peça que pegava, se lembrava de um momento, talvez de alguma época atrás...havia aquelas que ela já nem usava porque os outros insinuavam que ela já não tinha idade para usar, mesmo que se sentisse nova por dentro.
Demorou muito para organizá-las todas, mas ela conseguiu. Faltava apenas as últimas gavetas. Arrumou as duas primeiras, onde ficavam guardados os documentos do marido. Mas, na hora de arrumar a última, as filhas a pediram para fazer o almoço, porque já estavam com muita fome. Então ela deixou essa última gaveta para trás. Talvez quando ela tivesse tempo da próxima vez...
É preciso contar que nessa gaveta estavam seus momentos mais íntimos. Eram as fotos do tempo de escola com amigas com quem jurou amizade eterna, mas já nem tinha os telefones. Tinha também aqueles papéis onde havia dois nomes escritos dentro de um coração. Havia cartas de namorados antigos, clipes, uma foto de um ator de Hollywood... Claro que já não sentia nada por eles, mas gostava de guardar aquilo tudo.Era sua adolescência, era parte dela...parte da sua vida.
E depois de um tempo ela percebeu que a gaveta do canto era ela mesma, que sempre ficava por último em tudo na sua própria vida, que nunca se colocou como prioridade. Que deixava tudo em nome do marido e dos filhos. E nem reclamava...Aceitava até feliz em alguns momentos. Ela até já tinha pensado em realizar seu sonho de ir para o Nordeste com o marido, mas sem as filhas, para ela não tinha graça...quem sabe na outra primavera, quando elas estiverem mais crescidas e independentes.
Texto em homenagem a todas as mulheres do Brasil e do mundo, que além de sofrerem discriminação quanto a salários, além de serem julgadas com mais exigência pela sociedade e que além de não terem seu valor reconhecido, abdicam do mais importante da sua vida: seus planos, seus sonhos e vontades em nome de todos aqueles que as rodeiam.
Parabéns a todas vocês!
3 comentários:
Aninhaa...Adorei! Adorei tudo...Parabéns, garota!
Vc vai longeee (sempre te disse isso né!)
Me desculpe ter demorado para vir aki...vejo que perdi muita coisa...!
Estou orgulhosa de vc!!!!
Com certeza direi: "Essa é minha amiga!" risos
Continue assim...estarei sempre na torcida!
mil beijos...!
está sempre nos surpreendendo
AmoO
Bjuss continue assim... XD
oooi meninaaa!
Nossa seu blog ta demais, depois vc passa lá no meu no meu blog e deixa um coment ok?!
Amooo você garota!
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